quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Lições da vida...pensamentos que passei para o papel em 2005 e que encontrei. Continua a ser assim que penso por isso aqui está.

É curioso! Nunca vos passou pela cabeça aquela ideia maluca (ou não) de que a vida além de ciclica é sempre a mesma? Que todos nós vivemos exactamente as mesmas fases mas em alturas desencontradas e que é apenas por isso que parece tão diversa? Claro que há coisas que certas pessoas fazem que outras nunca farão! Isso, felizmente, é garantido.
No outro dia, ao contornar uma rotunda passou-me esta ideia pela cabeça!
Na altura achei engraçado, sorri e segui o meu percurso.
No entanto, se em parte parece impossível, e á primeira vista nos parece uma teoria absurda, o certo é que temos que admitir que já muitas vezes, por vicissitudes da vida fomos levados a agir de formas completamente novas e surpreendentes até para nós próprios! Quem não não deu por si a fazer algo que sempre repudiou? Quem nunca teve problemas em adormecer por se ter sentido forçado a agir contra aquilo em que acredita?
Quem nunca fez algo que antes condenava nos outros?
Pois é, a velha história de lançar a primeira pedra!...
Devo admitir que aos trinta anos, para além de conhecer um pouco mais o ser humano e a vida, tenho muito menos certezas do que as que tinha durante a infância e a adolescência. As certezas vão-se perdendo pelo caminho e em contrapartida as dúvidas que se instalaram em mim são cada vez mais!
Os motivos? Os motivos que nos levam a agir desta forma? Podem ser tantos!... Mas básicamente por amor, por descontentamento com a vida, por medo, insegurança, por coragem, por necessidade de nos sentirmos vivos!
Ao chegar aos trinta, (e refiro-me a esta idade como um marco, uma referência, um ponto de partida pois não houve um dia exacto em que acordei diferente), concluí que se não vou ser eterna, devo lutar cada vez mais por aquilo que quero.
O tempo passa a correr e nós estamos presos a um corpo que envelhece, que pode adoecer e deixar-nos limitados. Temos que usá-lo, tirar proveito dele enquanto tem algo para nos dar. Como os sentimentos, que já não escondemos, não guardamos para nós por medo, insegurança, inexperiência ou estúpidez. Não, agora percebemos que não há tempo a perder. A vida é para ser vivida, e em pleno. Não podemos desperdiçar o tempo que se gasta e tão rápidamente fica para trás. Há que sentir! Amar, ser amado, sorrir e chorar. Saber ganhar e perder com a mesma dignidade e sabendo que tudo faz parte da vida. Não se ganha sempre. Mas não se pode perder o tempo todo. Há que arriscar, ir para a frente e fazer aquilo que o nosso ser, a nossa alma nos pede.
E se aprendi alguma coisa até agora, essa coisa foi que não devemos ser preconceituosos e julgar os outros como se fossemos perfeitos e imaculados. Até mesmo porque se de alguma forma o fossemos, nada garantiria que daí para a frente não viéssemos a pecar!
E é ai que quero chegar! Durante toda a minha vida procurei agir de acordo com a educação que recebi. Frenquentei colégios bons, de freiras inclusive, e, em casa, embora não se vivesse á antiga e como manda a Igreja, foram-me incutidos aquilo que acho serem bons princípios. Uma sorte! Tendo em conta que cresci num ambiente particular e não muito recomendável... Hoje, com 30 anos, sinto que estou pronta para me libertar de algumas correntes que me têm mantido presa. Valorizo o amor, as boas condutas, o respeito pelo próximo, a generosidade, a compaixão e a entreajuda. Mas não quero continuar acorrentada a tanto que me privava de viver. Acreditava que tinha que ser uma menina imaculada com a obrigação de ser perfeita!
Refilava de tudo, censurava todos, atribuia culpas, ditava sentenças. Esperava demasiado de mim e exigia demais dos outros! Fruto da forma como fui criada (sim, cheguei a ser castigada por um atraso de 2 minutos...).
Nós somos o que somos. Podemos sonhar, devemos fazê-lo e precisamos disso! Mas somos sempre uns meros peões presos á nossa condição de humanos. Não estou a ser péssimista. Nada disso, apenas a constatar a realidade.
E, foi por ter chegado a estas conclusões que percebi que muito pouca gente merece o nosso sofrimento. Isto, se alguém o merecer... E nem é bem uma questão de merecimento, tem mais a ver com o facto de que sorrir e chorar fazem parte da vida e que quando choramos, não devemos deixar-nos ficar presos ao motivo que nos faz doer. Devemos usar a nossa capacidade regenerativa. Dar um salto para a frente. Hoje em dia tento pensar mais em mim. Já lá vai o tempo em que acordava com o peso do mundo em cima das minhas costas! Sentia-me triste pelas degraças do mundo. Sofria demasiado quando sabia pelo noticiário que alguém tinha perdido um ente querido. Doía-me ao ponto de chorar a valer por saber que um bébé estava a morrer de uma doença incurável, que um velhinho tinha morrido de solidão...que havia guerra e as crianças ficavam orfãs, mutiladas. Pensava muita vezes e enquanto me ria de alguma piada junto de amigos meus, lembrava-me que nesse preciso instante alguém estava a chorar, a sentir uma dor muito profunda, a sentir a maior tristeza que um ser humano tem capacidade de sentir, que havia pessoas com fome nesse instante! E depois, a minha alegria momentanêa já não era tão forte, tão plena! Desvanecia-se com a dor alheia.
Com o tempo acho que me tornei um bocadinho mais fria, talvez mais egoísta... Continuo sensível ao mundo e a tudo o que se passa. Mas percebi que não sou capaz de o mudar sózinha e de uma assentada! O mundo tem que ir mudando por sí, com tempo, e de acordo com o que as pessoas todas quiserem fazer dele. Percebi que não sou culpada por todas as suas tristezas. Deixei de carregar esse peso em cima dos ombros. Deixei de querer ser perfeita! Ora bolas! Que se lixe a perfeição. Mas como é que se pode ser feliz sendo perfeito num mundo de pernas para o ar?
Temos que viver de acordo com os nossos princípios sim! Mas temos que os saber gerir de acordo com os momentos e de acordo com os nossos sonhos. Amanhã pode ser tarde demais. E a partir de agora só me quero arrepender do que possa ter feito, não do que perdi a oportunidade de fazer. Quero ser feliz, quero pensar em mim. Quero ser mais ousada e corajosa. Tirar mais partido da vida! Ser mais desinibida, mais livre, mais adulta, mais mulher. Continuo a respeitar o próximo, só não quero achar que a felicidade dos outros depende directamente das minhas atitudes. A felicidade dos outros passa também pelo que eles fazem das vidas deles. Não depende única e exclusivamente de mim! Com isto não tenciono desresponsabilizar-me das minhas atitudes! Não! Apenas quero esclarecer a mim própria de que não sou culpada de tudo o que acontece de errado no mundo. Que eu também já sofri, que também já me magoaram muito.
Percebi que se eu não fôr feliz não vou poder contribuir para um mundo melhor! E eu quero as duas coisas, quero que o mundo seja melhor e quero muito ser FELIZ!!!!!
E acho também que se antes esperava alcançar a felicidade por intermédio das atitudes dos outros, que estava enganada. Não posso depender dos outros para me sentir feliz. Tenho que saber buscar a felicidade dentro de mim. Se eu me puser á disposição, completamente entregue nas mãos de outra pessoa, torno-me vulnerável, e o ser humano quando vê fraqueza, talvez por um resquício de animalidade selvagem, pisa, enxovalha, despreza, maltrata, magoa.
Tenho que ser eu a defender-me, a saber dar-me aos outros sem me perder de mim. Ter os meus limites, exigir o respeito que me é devido. Não consumir a minha energia de forma errada ou pior ainda permitir que me a levem de mim.
Quero dar-me ao mundo, ás pessoas, á vida, mas não vou fazê-lo ao desbarato. Quero dar-me a quem me queira receber, a quem me dê valor. Não faz sentido implorar o afecto de alguém ou viver apenas das suas migalhas de afecto. Nem em relação á família nem em relação aos nossos outros afectos e amores. Com tanta gente no mundo, mais tarde ou mais cedo vão surgindo aqueles para quem somos importantes e que estão na nossa onda. Que pensam e sentem e amam como nós. E esses, esses que vão aparecendo e que são como nós, dão-se a conhecer, revelam-se, e aí, aí podemos ser nós próprios, sem esquemas e jogos. Aí ,podemos agir e sentir de forme livre. Podemos finalmente ser transparentes sem correr grandes riscos porque estamos em contacto com alguém que já ama, sente e pensa como nós.

1 comentário:

Eu ...Maria disse...

pois é.... a idade faz milagres! Vemos as coisas com outros olhos encaramos os obstáculos com outra força e já não nos deixamos cair com tanta facilidade!!!